domingo, 21 de dezembro de 2014

A saída da crise é salvar a Mata Atlântica

Enquanto a Amazônia brasileira chama a atenção do mundo, com seu corte raso já tendo atingido cerca de 19% da floresta original, grande parte da população de nosso país ignora ou nada faz para acabar com seu próprio prejuízo pela devastação da Mata Atlântica, que já alcança mais de 87% de seu domínio desde o Descobrimento do Brasil e é um dos principais fatores da crise hídrica e energética que prejudica a região Sudeste.

O desmatamento da Amazônia alcançou uma área equivalente à metade do Estado do Amazonas. Metade desse estrago aconteceu nos últimos 25 anos. O ritmo dessa devastação teve uma significativa redução desde 2006, mas antes que restem menos de 80% da floresta na região é urgente diminuir ainda mais as taxas anuais de desmatamento.


Reservatório Atibainha, do sistema Cantareira, em área de mata Atlântica em Atibaia (SP). Imagem: Maurício Tuffani/Fohapress/28.out.2014

No outro lado do país, na mata Atlântica, as proporções se invertem. Ao contrário da Amazônia, onde a preservação é maior que a devastação, na grande floresta tropical que se estendia por 131 milhões de hectares do Rio Grande do Sul ao Piauí e do litoral ao Centro-Oeste, resta hoje apenas cerca de 16,5 milhões de hectares, ou seja, pouco mais de 12%.

Se não cuidarmos desses poucos remanescentes e não recuperarmos grande parte do que foi desmatado, nunca conseguiremos nos livrar da crise hídrica.

Conservar e recuperar

No final do século 20, quando a conservação da biodiversidade já era considerada importante, a Conservation International e outras entidades tentaram chamar a atenção para o fato de que a mata Atlântica e o Cerrado eram hotspots, ou seja, biomas de altíssima diversidade biológica, mas gravemente ameaçados pela devastação.

Além da necessidade de deter a devastação, como na Amazônia, na mata Atlântica é cada vez mais urgente promover a recuperação de grande parte das áreas degradada. Somente agora, com a crise hídrica e energética que assola a região Sudeste, começou a se compreender essa urgência, especialmente para as áreas das bacias hidrográficas, como a dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari, onde está o sistema Cantareira e outros que abastecem a região de maior concentração populacional do Estado de São Paulo.

Devastação prossegue

Apesar disso, além de a recuperação de áreas degradadas de mata Atlântica ainda estar engatinhando, o desmatamento segue em ritmo intenso em algumas cidades de Estados como Piauí, Minas Gerais e Bahia, segundo o monitoramento realizado desde 1986 pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Duas cidades do Piauí tiveram as “medalhas de ouro e de prata” no ranking das maiores desmatadoras brasileiras da mata Atlântica de 2012 a 2013. Manoel Emídio foi a campeã, com 3.134 hectares, ou seja, 13% do total de 24,7 mil hectares de desmatamento nesse biênio. Alvorada do Gurguéia, a segunda colocada, teve 2.491 hectares devastados, o correspondente a 10% do total desmatado no bioma no mesmo período.

O “Atlas dos Municípios da Mata Atlântica” aponta cinco desses dez municípios em Minas Gerais, Estado que liderou o ranking nacional do desmatamento por cinco anos consecutivos. A devastação acumulada desde 2000 por algumas dessas cidades apresenta números ainda mais assustadores.

Cinco séculos

A mata Atlântica foi o bioma mais devastado de nosso país por ter sido o principal cenário da história do Brasil em seus primeiros séculos. Foi no domínio original dessa floresta que se implantou o modelo predatório da agricultura colonial. Adotado pelos colonizadores portugueses sem a menor preocupação com a aplicação de conhecimentos de proteção dos solos, esse modelo de agricultura deixou perplexos os imigrantes europeus que chegaram a partir do final do século 19.

Essa cultura baseada na relação inconsequente com o uso da terra, que já havia sido  dissecada por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu clássico “Raízes do Brasil”, de 1936, foi mais tarde retomada no livro “A Ferro e Fogo: A história e a devastação da mata Atlântica brasileira”, de Warren Dean (1932-1994). Nas palavras desse brazilianist,

“Durante quinhentos anos, a Mata Atlântica propiciou lucros fáceis: papagaios, corantes, escravos, ouro, ipecacuanha, orquídeas e madeira para o proveito de seus senhores coloniais e, queimada e devastada, uma camada imensamente fértil de cinzas que possibilitava uma agricultura passiva, imprudente e insustentável. A população crescia cada vez mais, o capital ‘se acumulava’, enquanto as florestas desapareciam.” (“A Ferro e Fogo”, Companhia das Letras, 1996, pág. 380)

Alerta

Tive o prazer de conhecer pessoalmente Dean em 1992 na biblioteca do Instituto Florestal de São Paulo, quando ele ainda estava pesquisando para essa obra, publicada postumamente em 1995. Influenciado não só pela magnitude da devastação, mas também  pela irracionalidade predatória de nossa história e pela descrição de Sérgio Buarque de Holanda sobre nosso caráter nacional, Dean era profundamente descrente da possibilidade de implantar modelos sustentáveis de agricultura na mata Atlântica.

Sob essa perspectiva pessimista, ele finalizou seu livro mostrando que nada mais restava a essa floresta senão servir de alerta para a Amazônia:

“O último serviço que a mata Atlântica pode prestar, de modo trágico e desesperado, é demonstrar todas as terríveis consequências da destruição de seu imenso vizinho do oeste.”

Crise hídrica

Na verdade, Dean, que mal teve tempo para testemunhar projetos sustentáveis nessa floresta, com essa frase de efeito subestimou suas próprias constatações sobre a importância dos remanescentes da mata Atlântica para a integridade das bacias hidrográficas.

Entre outros estudiosos, uma das fontes do brazilianist, Paulo Nogueira Neto, secretário especial do Meio Ambiente do governo federal de 1974 a 1986,  já havia alertado para a desastrosa obsolescência de nossos sistemas de abastecimento de água, programada imprevidentemente pelos desmatamentos e pela falta de recuperação de áreas degradadas.

Hoje a crise hídrica e energética que assola a região Sudeste não nos deixa alternativas que não incluam a salvação de nossos mananciais. Foi um dos pontos que ressaltou há poucos dias a Academia Brasileira de Ciências ao endossar um manifesto de 15 pesquisadores que alertaram para estiagens cada vez mais extremas devidas a “fortíssimos os indícios de que há uma mudança climática em curso”

Mesmo que venha a chover o necessário para evitar uma catástrofe, ainda que passemos a usar água de modo consciente e por mais que os governos construam os sistemas de abastecimento que já deveriam estar prontos, nunca mais teremos segurança hídrica se não pararmos a devastação de nossa cobertura vegetal nativa e se não recuperarmos grande parte das áreas florestais degradadas, principalmente nas bacias hidrográficas.

Nunca estaremos livres dessa crise sem salvar a mata Atlântica.

Por Maurício Tuffani
Fonte: Folha de S. Paulo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Cúpula climática em Paris terá mais dificuldades após acordo modesto em Lima

LIMA (Reuters) - A cúpula do clima de Paris em 2015 terá uma missão mais difícil para obter um acordo da ONU para desacelerar as mudanças climáticas, depois que as esperanças de que um acordo entre Estados Unidos e China fosse uma chave mágica para destravar um impasse global se dissolveram nas conversas preparatórias em Lima.



No melhor dos casos, Paris pode ser uma chance para reformar um sistema de conversas anuais da ONU --mais de 11 mil delegados compareceram às conversas de dois dias em Lima-- e descobrir maneiras de impulsionar ações de longo prazo para conter as crescentes emissões de gases-estufa.

Mas o impulso político do acordo EUA-China deu lugar às familiares divisões e “linhas vermelhas” que rotineiramente empacam as conversas, especialmente sobre a questão da diferenciação das responsabilidades dos países riscos e pobres.

“O anúncio EUA-China indicou uma mudança fundamental em colocar países desenvolvidos e em desenvolvimento em um patamar mais igual. Não é surpresa que, em Lima, um monte de países em desenvolvimento resistiram”, disse Elliot Diringer, do Centro para Mudanças Climáticas e Soluções em Energia.

A Organização das Nações Unidas diz que já está claro que as promessas para reduções de emissões em uma cúpula de Paris, que acontecerá em dezembro de 2015, serão muito fracas para avançar para a meta da ONU de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. 

“Teremos muito trabalho a fazer”, disse o ministro francês do Exterior, Laurent Fabius, sobre o desafio de Paris.

Mesmo assim, 2015 ainda carrega uma esperança de reformas para que o sistema da ONU tenha maior controle sobre políticas de emissões de gases-estufa, que são culpados por ondas de calor, inundações, secas e aumento dos níveis do mar.

Paris pode marcar uma mudança de rumo das duas décadas de diplomacia climática em direção a um sistema mais tecnocrático, que permitiria que compromissos nacionais para ações climáticas fossem comparados e fortalecidos nos próximos anos.

Yvo de Boer, um ex-chefe da ONU para questões climáticas, disse que um problema era que negociadores da ONU não tinham autoridade. “Se os líderes do Grupo dos 20 se reunissem e dissessem ‘vamos fazer isso’, toda essa conversa acabaria em 30 minutos”, disse ele à Reuters.

De Boer, que agora lidera o Instituto Global de Crescimento Verde, que ajuda países em desenvolvimento, notou que as conversas climáticas anuais cresceram muito desde que 1.000 delegados se reuniram pela primeira vez em 1994.

“Paris pode ser uma oportunidade para mudar isso, se forem identificados pontos que precisam ser completados. Isso pode ser transformado em um processo técnico, e não político”, disse.

Até agora, no entanto, os sinais não são tão bons.

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa, após a China ter negado um esforço da União Europeia por relatos detalhados dos planos.

Assim, o resultado das conversas de Lima, que atraíram desde ministros de países da Opep até veganos vestidos como frangos, significa que um acordo em Paris deve ser um mero remendo das ofertas nacionais para conter as emissões.

Por Alister Doyle e Valerie Volcovici
Fonte: Reuters